"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome." (Clarice Lispector)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Parte final - todo mundo tem um dia de deprimido: Bucéfalos e outros bichos!

Será que gosto do que escrevi?
Sim , gosto muito de tudo isso (não é propaganda).
Enfim, apesar de ser um texto enredado, foi um momento único, que passou e não voltará com os mesmos aspectos e sentimentos. Uma alma em aflição é estranhamente negra e desmesurada.
Continua...

Tenho que admitir que gota a gota a excelência da realização se esvaia de mim. Como um pequeno frasco de remédio super concentrado a célula da essência vai me abandonando. Critico porque me acomodo, ou passo a conviver com a convivência. Exuberante conveniência!
Houve um tempo, e não está muito longe, o quanto sentia pulsar faíscas de criatividade: palavras, crônicas, ideias.
Ah! Ideias! Sejam elas originais ou adaptadas são para sempre as ideias. Brotando por minhas mãos, olhos, poros, língua, canetas, sonhos. Minhas ideias.
Com pouca estima por mim, me sento e me acomodo agora. Com o temor recorrente de vacilar adaptam-se os seres à rotina. Deixando cretinamente que os idiotas suguem de hora em hora nosso viço e inteligência.
Quem tem o poder afinal da transmutação?
Bem triste sigo, negando de verdade tudo que minhas memórias e aspirações me trazem hoje. Por que continuar servindo a bucéfalos pretenciosos, príncipes soberbos de asneiras?
Malgrado o mau servir, qual êxito há nessa conquista?
Concluo enfim as páginas com a expectativa de um querer mais.
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sábado, 2 de outubro de 2010

Lady Gaga e crise nos votos

Como twitei hoje, eu estou muito estranha!
Acordei apavorada com o sonho que tive com a Lady Gaga, cheia de carne e sangue por todos os lados. Maldita mania de dormir vendo TV, estava curtindo o programa na MTV com o Cazé entrevistando um cara (sei lá o nome) sobre os rigtones e dowloads de músicas. Aí o cara cismou em falar da "inacreditável" Lady Gaga com aquela roupa dos infernos. O Cazé não achou o comentário muito legal, pois deixou bem claro ser vegetariano. Aliás até agora não entendi o propósito daquilo.
Foi só pesadelo, era um tal de morte aos bois no meu sonho, carne crua, uma desgraceira total. Espero que tenha sido somente um sonho terrível. Nada de premonições. Nem quero imaginar!
Ou melhor, será que tem a ver com as eleições de amanhã? Carnificina e crueldade articulada ao povo brasileiro?
Jesus, Maria e José. Não sou católica, mas o negócio é apelar a todos os Santos e inclusive ao PAI.
Eu estou numa crise imensa de responsabilidade democrática. Decidi, ainda que sem o convencimento necessário, a terrível maldição de anular meus votos. Eu estou estranha hoje! Vou beber um pouco pra ver se passa. Ainda mais que a bebida tá liberada amanhã (aqui no RJ e em alguns outros estados).

Então decidi!
Chego de porre. Chuto todo mundo. Grito meia dúzia de palavrões. E voto em porra nenhuma!


ps: Desculpem-me mas não me atrevo em colocar imagem, pois só me ocorre que a melhor seria a Lady Gaga e já sofri demais com toda aquela bizarrice. 
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Conto I: A Maçã.

Sonhei que comia uma maçã. Ela estava muito doce. Era estranho, pois era uma maçã verde.
Entre pães e bolos, descobri a maçã com seu aroma ácido. Mirei nas verdes. Uma senhora prateada sussurrou que as vermelhas eram mais simpáticas e companheiras.
- Não mesmo! As verdes são mais bonitas,respondi.
Percorrendo o corredor de enlatados, eu e as maçãs desfrutávamos o amor. Eu descobrira quase sem querer que os acidulantes e conservantes açoitaram por longo tempo meus rins, tornando-me uma presa viciada da praticidade e do gostinho fácil.
Continuamos por mais corredores enfermos, com seus corantes desaforados, achocolatados e biscoitos megalomaníacos, cujo desejo final sempre foi dominar o mundo e todas as mentes.
Eu e minhas maçãs, em sensual sintonia de atração, nos protegemos meticulosamente das teias ardilosas da gula.
Seguimos ao caixa, já tocava as maçãs como se as mesmas num rompante infantil pudessem esticar suas perninhas e pular fora da cesta de uma só vez.
Agarrei-as sem preparo, abocanhei-as em sofreguidão.
Até o último pedaço. Foram mastigadas!
Todos boquiabertos, atônitos, cochichavam e riam, balançavam suas cabeças em desaprovação.
Meu caso de amor acabou em desastre. Ao julgar que poderia sucumbir aos encantos do glúten , horrorizei as frutas com minha falta de humanidade.
Elas urraram em uníssono no mercado.
CAIA FORA, MONSTRA DA GULA!
NÃO QUEREMOS SER DEVORADAS ASSIM.
QUEREMOS SER PROVADAS COM TODO CARINHO.
E ADORADAS.
QUE A BOCA TENHA MANHA.
QUE A SALIVA SEJA SUBMISSA.
QUE DENTES NOS MASTIGUEM MACIAMENTE.

Só que eu repliquei. _ Não dá tudo no mesmo?

Elas riram, sim senhor, elas riram em algazarra, e na balbúrdia me jogaram uma praga.
_Pra quem desconhece que mastigação tem  mistério, que morra envenenado o sistema digestório!
Acordei em prantos. Que falta de respeito!
Saquei da bolsa um chiclete de frutas vermelhas, um cigarro mentolado e de quebra alguma coisa com álcool. Arremessei tudo pra dentro!
Aos poucos, uns pipocos estouraram nas minhas entranhas. Era insólito! Era loucura! Era verdade!
Iniciava-se uma luta armada dentro do meu estômago. Não havia negociação, em jogo a posse de armas químicas. Derivados de petróleo,  de açúcar e nicotina entraram em confronto corpo a corpo. Um desespero só. Gritaram de lá de dentro em profusão:
MONSTRA DA GULA. VAI PRA MESA DE OPERAÇÃO.



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O coração maconheiro do 2ºgrau

Desde que reconheci e uni as letras, apaixonei-me pelas palavras e os resultados que dessa união podem surtir.
Escrevi contos, poemas, frases, numa produção incessante. E foi na adolescência que mais cultivei diante da profusão de ideias.
No meu colégio havia uma professora de Português  que impunha respeito, talvez pelo seu caráter que imprimia seriedade, talvez por sua altivez e cabelos tão longos e lisos (naturais mesmo).
Seu nome? Maria Rúbia!
Quando mirava seus olhos, eu compreendia o significado de ser forte.  Acredito até mesmo que sua mãe ao escolher chamá-la de Maria Rúbia, sabia que tinha 60 por cento de chance de ser mais forte de qualquer outra pessoa.
Nesta época eu já possuía vários cadernos escritos, e entreguei um a Maria Rúbia, um velho caderno de espirais e encapado com plástico de guardar legumes. Queria que ela avaliasse e corrigisse os erros crassos que eu cometera na minha sofreguidão de escritora.
Ela se enterneceu, ainda que na sua forma dura. Após duas semanas chamou-me depois do intervalo em particular. Ali meu coração descolou da caixa torácica e se meteu no avesso, meu corpo se enuviou e me espantei já que estava desaparecendo na ansiedade.
 Quando o velho pátio da escola deixou-nos em solidão, a professora com sua fortaleza contida em si mesma observou coisas boas e más, avaliou minha ortografia.
_ É satisfatória!

Mas neste momento vi seu olhar se demorar nas últimas páginas e perguntou com uma voz de mulher maternal, transformada tão repentinamente.
_ Está enfrentando problemas com as drogas?
_ Não professora (respondi)! Nunca! Não quero nem experimentar (mentira)!
_ Pois se você estiver confusa, pode confiar. Estarei aqui.
_ Fique tranqüila, professora. Está tudo bem!

Maria Rúbia devolveu-me o caderno e sua sentença faz anos perdura em minha memória.
_Dedique-se e escritora serás!

Nunca passei de uma amadora. Mas ao escrever continuo a me apoderar, sendo todas as pessoas gentis e más, vivendo todos os conceitos, possuo as almas da Terra, e suas energias recrutam em mim possibilidades insondáveis.

Este foi um pequeno trecho que desconcertou Maria Rúbia:

“ O coração zombeteiro de tanto haver amado na sombra
Virou coração maconheiro, traído e revirado na lama.”
Por Erica Panno, 1991.

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